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A televisão e os videojogos:
semelhanças e diferenças

Diego Levis (Doutor em Ciências da Comunicação)


Resumo

Jogar com videojogos e ver televisão estão entre as actividades de lazer preferidas pelas crianças e adolescentes de todo o mundo. Ambas formam parte do sistema mediático e em repetidas ocasiões pais, docentes e alguns especialistas utilizam critérios semelhantes para as valorizar, como se ver televisão e jogar com videojogos fossem actividades da mesma natureza.

Desenvolvimento

Jogar com videojogos e ver televisão estão entre as actividades de lazer preferidas pelas crianças e adolescentes de todo o mundo. Ambas formam parte do sistema mediático e em repetidas ocasiões pais, docentes e alguns especialistas utilizam critérios semelhantes para as valorizar, como se ver televisão e jogar com videojogos fossem actividades da mesma natureza.

A confusão tem a sua origem no facto de que ambos os meios oferecem imagens sonoras em movimento através do televisor (no caso das videoconsolas) ou de outros ecrãs electrónicos semelhantes. Para além disso, a televisão (e o cinema) e os videojogos partilham e trocam um número crescente de personagens, cenários e argumentos narrativos. Assim, é habitual encontrar séries de televisão baseadas em videojogos e videojogos que são adaptações de filmes e programas televisivos. A isto, há que acrescentar o uso comum que ambos os meios fazem das técnicas de geração de imagens por computador, que tende a aproximar visualmente os videojogos a muitos programas de televisão, em particular os destinados a público infantil. No entanto, apesar destas semelhanças existem diferenças fundamentais entre olhar para a televisão e jogar com videojogos.

  • Actividade/passividade: Os videojogos, ao contrário da televisão, são um meio activo. Se excluirmos a possibilidade de mudar de canal ou de modificar o contraste, a cor e o volume da emissão, os telespectadores não têm praticamente nenhum controlo sobre o desenvolvimento do que acontece no ecrã. Os videojogos, pelo contrário, foram o primeiro meio a combinar a multiplicação de estímulos e de dinamismo visual da televisão com a participação activa do utilizador.

Ao contrário da televisão, os videojogos permitem modificar o desenrolar da acção que aparece no ecrã. Esta capacidade, que se conhece como interactividade, envolve o jogador no desenrolar da cena que está a ver, tendendo a desaparecer a distinção entre o espectador e o protagonista do jogo. De tal modo que, para que a acção do jogo siga o seu percurso, torna-se imprescindível que o jogador assuma pessoalmente a execução das acções necessárias, para isso, através do controlo directo do personagem (ou personagens) representado no jogo.

  • Concentração: Ao contrário da televisão cuja recepção não requer um esforço especial de concentração, a maior parte dos videojogos obrigam a manter a atenção no ecrã durante o decorrer da partida. Qualquer pequena distracção pode significar a imediata perda do jogo.

Nesse sentido, pode-se falar de um olhar fraco e de um olhar forte/atento.

  • Modos de Participação: Jogar com os videojogos é uma actividade que cada utilizador ou grupo de utilizadores realiza individualmente frente a um ecrã. Mesmo nos jogos na Internet, trata-se de uma actividade circunscrita a um grupo mais ou menos numeroso de pessoas que participam na mesma partida e em cujo desenvolvimento cada um deles tem uma incidência directa. A televisão, pelo contrário, permite uma recepção colectiva, seja no âmbito familiar ou comunitário (bares, escolas, centros cívicos, etc.). Olhar para a televisão implica, também, partilhar um mesmo conteúdo com um número elevado de pessoas situadas em diferentes lugares, que vêem simultaneamente uma mesma emissão sobre cujo desenrolar não têm nenhum tipo de participação.

Simulação e realidade: Atribui-se muitas vezes à televisão o papel de espelho da realidade. Em ocasiões a transformação completa-se e a televisão converte-se na Realidade, assim, com maiúsculas. Os videojogos, pelo contrário, assumem plenamente a sua natureza lúdica. Uma natureza que gira à volta de duas coordenadas fundamentais: a fantasia e a simulação.

Conclusão

Como vimos, ver televisão e jogar com videojogos, apesar da sua aparente semelhança, são actividades de natureza distinta. O facto de que não partilham aspectos tecnológicos e, em repetidas ocasiões, também universos estéticos e narrativos, faz com que muitas vezes se esqueçam as notáveis diferenças que existem nos modos de acesso, utilização e recepção de ambos meios, já desenvolvidas nas linhas anteriores. A chave reside em recordar que no caso da televisão olha-se e com os videojogos joga-se e jogar implica decidir e agir.

Fevereiro 2005